PORTO ALEGRE - A Comisso Especial dos Desaparecidos Polticos, que ter sua quarta reunio na quinta-feira quando ir estudar 20 novos casos, est reescrevendo para a Histria do Brasil as pginas mais obscuras da ditadura militar de 64: as das torturas, mortes e dos desaparecidos. Documentos e verses divulgados na poca pelas autoridades esto sendo desmentidos, formal e legalmente, um a um. "Caem por terra todas as verses oficiais da poca", afirma o representante das Foras Armadas na comisso, general Osvaldo Pereira Gomes, 65 anos.

O general Gomes se diz tranqilo e isento para ajudar a reescrever, com seus votos, os anos de chumbo da histria brasileira. Por isso, tambm com tranquilidade, o general Gomes apia totalmente a segunda e futura etapa dos trabalhos da comisso - tentativa de localizao dos corpos - por "estar na lei de indenizao dos desaparecidos. Alm disso,  uma questo humanitria, o direito de os familiares enterrarem os restos mortais dos seus entes queridos."

Contraditrio - "Nas reunies da comisso, fao o contraditrio, pois h muita paixo poltica envolvida. Alguns militares podem no gostar como atuo, mas ajo com iseno e independncia. Nunca recebi presses de quem quer que seja, nem aceitaria", garante o general.

O presidente da comisso, Miguel Reale Jr, 52 anos, destaca que "o regime militar autorizou e deu guarida a todas as violncias, mesmo quando a verso oficial era mentirosa, at bisonha. Ao reescrevermos essa parte da Histria brasileira, estamos resgatando a credibilidade sobre o conceito pblico de civilidade e dando o exemplo s novas geraes. Ao darmos nossos votos, ficaram e ficaro registradas as responsabilidades de todos nesse perodo perante a Histria".

Suzana Lisboa, 44 anos, representante na comisso dos parentes de desaparecidos, confessa "imensa emoo" que j a fez chorar nas reunies, por ver "restabelecida a verdade histrica que as famlias vm denunciando h tanto tempo, mostrando que a verso oficial sobre supostos atropelamentos, tiroteios ou suicdios era mentirosa".

Responsabilidade - "Os governos da poca tinham responsabilidade por aquela situao, j que a poltica oficial era essa, do aparato do Estado por trs dos rgos de segurana. Presidentes e ministros - com exceo talvez de alguns - sabiam o que estava acontecendo", completa.

As antigas e falsas verses continuam a fazer parte de documentos da rea militar - como nos relatrios sobre desaparecidos entregues pelos ministros da Marinha e Aeronutica ao ento ministro da Justia Maurcio Correa (governo Itamar Franco) - alerta Suzana. Por isso, ela sugeriu  comisso que, ao fim dos trabalhos seja publicado em livro o relatrio final.

At 9 de maio a comisso, instalada no prdio Anexo II do Ministrio da Justia, estar recebendo novos pedidos de indenizao de famlias de mortos e desaparecidos, cifras que variam de R$ 100 mil a R$ 150 mil. Embora a comisso no tenha poder para responsabilizar individualmente os torturadores devido  Lei da Anistia, Suzana alerta que as famlias podero utilizar futuramente as documentaes obtidas e aprovadas para, por exemplo, "processar mdicos legistas que deram laudos falsos para acobertar torturas".
